terça-feira, 3 de abril de 2012

SIZA EM ANGRA (Artigo Jornal União 2 Abril 2012)

















Imagem in A Reconstrução do Chiado. Lisboa. Álvaro Siza, Ed. Livraria Figueirinhas, 2.ª ed. 2000, p. 117.

Angra recebeu o Arqt. Siza Vieira no passado dia 28 no âmbito das comemorações do Dia Nacional dos Centros Históricos. O mais conhecido Arquiteto português explanou acerca do tema “A Arquitectura e a Cidade”.
A Arquitectura nunca deverá ser pensada/criada como um objeto singular, como num ato egoísta de quem a concebe ou é seu proprietário.
Esta afirmação tem um sentido mais forte em centros históricos e urbanos, em que na mesma malha coesa e densa se articulam tecidos de várias épocas, marcando várias gerações… ou assim deveria ser.
A visão dos nossos grandes nomes de Arquitectura Portuguesa poderá ajudar numa análise mais clara e desintoxicada do tema, sendo necessário um certo afastamento dos objetos para uma mais acertada reflexão. Poderemos estar demasiado embrenhados em Angra para a poder Ver como ela é e merece.
Neste sentido foi gratificante ouvir Siza, ele que interveio no Chiado, na reabilitação de espaços públicos do Porto e no Centro Galego de Arte Contemporânea de Salamanca por exemplo.
Acerca do Chiado Siza escreveu “Não existe um monumento importante na cidade sem a continuidade anónima de múltiplas construções (…). E contudo, na evolução da cidade, a perda deste sentido do papel de cada construção está aos olhos de todos. A generalizada ambição de protagonismo torna por isso impossível qualquer forma de protagonismo.”(1)
(1)  SIZA, Álvaro- Imaginar a Evidência, Edições 70, 1998, p.97.

quinta-feira, 29 de março de 2012

"Estalagem da cimeira Nixon-Pompidou em ruínas"










"Durante dois dias do mês de dezembro de 1971 uma estalagem localizada na mata da Serreta, em Angra do Heroísmo, nos Açores, transformou-se no centro do mundo.
Um número nunca antes visto de jornalistas estrangeiros acorreu àquele edifício com vistas únicas sobre o oceano para fazer a cobertura de um dos mais importantes acontecimentos políticos da época: a cimeira entre Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos da América, e Georges Pompidou, presidente francês.
O anfitrião foi Marcelo Caetano, que dormia na então luxuosa Estalagem da Serreta, onde decorriam as conversações. Quarenta anos depois, o edifício, uma das jóias da arquitetura modernista portuguesa, concebido pelo arquiteto João Correia Rebelo, está abandonado e em ruína. 

Toxicodependentes na Serreta 

O abandono começou no início dos anos de 1980, quando a estalagem encerrou a sua atividade de hotelaria no âmbito da empresa TurHotel. A partir daí nunca mais lhe foi atribuída uma utilização condizente com as características do edifício e, pelo contrário, acabou cedida nos anos de 1990 à associação de reabilitação de jovens toxicodependentes "Le Patriarche".
O declínio progrediu em rota acelerada e nunca mais terminou, mesmo se a Assembleia Legislativa regional dos Açores classificou a estalagem como imóvel de "interesse público" a 1 de março de 2007.
Comenta-se depois a existência um plano de recuperação, a cargo do grupo açoriano Paim, que, nas diferentes ocasiões em que foi contactado, entendeu não dar qualquer esclarecimento ao Expresso sobre eventuais projetos para a Serreta. Na página oficial do grupo disponível na internet diz-se, no entanto, que a estalagem será reconvertida "num luxuoso Resort e Spa".

Obra-prima do modernismo


Situada na ilha Terceira e com projeto geral concebido entre 1961 e 1963 e projeto de mobiliário elaborado entre 1967 e 1969, a estalagem é vista como a obra-prima do moderno açoriano.
João Vieira Caldas, arquiteto e comissário da exposição dedicada ao trabalho do arquiteto João Correia Rebelo apresentada em 2002 nos Açores, referiu, em declarações ao Expresso, que a estalagem "é o último grande trabalho de João Correia Rebelo em Portugal e representa uma viragem na sua obra que é representativa da viragem que a arquitetura portuguesa estava a ter naquele momento".
Nascido em Ponta Delgada em 1923 e licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa, João Rebelo era filho do pintor Domingos Rebelo. Começou por trabalhar na sua cidade natal, mas a defesa de princípios muito firmes levou-o a considerar que não estavam reunidas as condições para continuar a exercer a profissão de arquiteto na ilha. Regressou ao continente e em 1969 emigrou para o Canadá, onde veio a falecer.

Correia Rebelo militante do Movimento Moderno


No catálogo da exposição de 2002, elaborado pelo Instituto Açoriano de Cultura, refere-se que João Correia Rebelo, "como muitos arquitetos da sua geração, acreditava que a arquitetura e o urbanismo propostos pelo Movimento Moderno haveriam de mudar o mundo para melhor". Nesse sentido, não concebia uma arquitetura que não recorresse às possibilidades técnicas e materiais do seu tempo, "que não fosse a expressão inequívoca desses recursos, das funções a que se destinava, de um desígnio social".
Homem de convicções profundas, Rebelo distinguiu-se "pelo modo particularmente aguerrido e intransigente com que defendeu aqueles ideais e por ter tentado fazê-lo não só através dos seus projetos, mas também, caso único no Portugal dos anos 50, pela publicação de verdadeiros manifestos".
Particularmente relevantes são os manifestos "Não!", escrito em 1953, e "Senhor Ministro", de 1956, nos quais expressa com grande veemência a sua discordância quanto a algumas opções que estavam a ser tomadas no plano urbanístico, nomeadamente pela Câmara Municipal de Ponta Delgada.

Edifício está em risco

João Vieira Caldas sublinha que este homem, amigo de Nuno Teotónio Pereira, muito católico e membro do Movimento de Refundação da Arte Religiosa, "era uma mentalidade representativa de uma época, que se opõe á mentalidade de hoje, em que a arquitetura pretende ser estrela e todos os autarcas querem ter uma obra de um arquiteto de renome".
Para este arquiteto, a Estalagem da Serreta é um ponto de chegada. "É notável a qualidade com que é implantada no sítio, como se distribui pelo terreno e como a partir dela se estabelece uma relação com a paisagem exterior". 
Se não for acudida, a estalagem corre sérios riscos de sobrevivência. Fez história e recebeu grandes protagonistas da história.

Uma cimeira de europeus contra norte-americanos

A cimeira entre Nixon e Pompidou surgia na sequência das decisões do presidente norte-americano de apostar num dólar cada vez mais forte e impor restrições às importações norte-americanas. Os europeus não gostaram e a França assumiu na cimeira o papel de porta-voz desse descontentamento. Dos acordos então estabelecidos resultou uma desvalorização do dólar e o fim definitivo da sua paridade com o ouro.
Os protagonistas desta cimeira histórica não continuaram muito mais tempo no poder. Georges Pompidou morreu no dia 2 de abril de 1974, vítima de doença divulgada precisamente durante a cimeira. Marcelo Caetano, que nunca se encontrou com os dois presidentes em simultâneo, foi afastado do poder na sequência da revolução de 25 de abril de 1974. Richard Nixon resignou a 6 de agosto do mesmo ano em resultado do escândalo Watergate."

quarta-feira, 21 de março de 2012

POESIA | Na Casa Defronte

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.

São felizes, porque não sou eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,

Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,

Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.

Assim tem que ser onde tudo se ajusta —
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!


Mas os outros não sentirão assim também?

Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.

Quem sente somos nós,

Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada! Não sei...

Um nada que dói...


Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quarta-feira, 7 de março de 2012

Siza Vieira em Angra do Heroísmo a 28 Março


"A cidade de Angra do Heroísmo receberá, pela primeira vez o arquitecto Álvaro Siza Vieira para as comemorações do Dia Nacional dos Centros Históricos, que se celebram no dia 28 de Março. Angra do Heroísmo é, este ano, sede oficial das comemorações.

A Delegação dos Açores da Ordem dos Arquitectos associa-se a este evento, designadamente à conferência que Siza Vieira vai proferir, às 11h, do dia 28 de Março no Salão Nobre do Edificio dos Paços do Concelho, e para a qual foi atribuído 1 crédito, no âmbito da formação obrigatória em temáticas opcionais dos estágios de ingresso na Ordem dos Arquitetos. A conferência é dedicada ao tema "A Arquitectura e a Cidade" e a entrada é livre.

Nesta sua primeira visita aos Açores, o arquitecto portuense vai ainda ser distinguido com o 1.º Prémio Nacional Memória e Identidade, prémio este atribuído em resultado de parceria entre a APMCH e a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo."

In http://oasrs.org/news/2012/02/siza-vieira-em-angra-do-heroismo-a-28-marco

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sessão de Esclarecimentos- Ordem dos Arquitectos- Angra do Heroísmo

"A Delegação dos Açores da Ordem dos Arquitectos irá promover no próximo dia 29 de Outubro (sábado) pelas 15.00 horas uma Sessão de Esclarecimentos, na Associação dos Montanheiros, sito a Rua da Rocha nº6/8, em Angra do Heroísmo.

Para além dos esclarecimentos que iremos prestar, gostaríamos acima de tudo de perceber quais as dificuldades e os anseios dos Arquitectos da Terceira, no contexto da presente realidade económica e profissional."

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Angra do Heroismo aos olhos de Raul Brandão

"O navio fundeia na Terceira, num vasto semicírculo, fechado ao norte pelo monte Brasil e do outro lado pela ilha das Cabras. Está um calor surdo. Demoro-me a olhar a cidade, donde irrompe uma pirâmide amarela, o monumento a D. Pedro IV. Num plano mais afastado alguns montes escalvados. É Braga, Braga com mais regularidade nas ruas, mais cai nas paredes, e que lhe deu na veneta para ser praia, estendendo até à beira-mar os seus conventos e as suas igrejas pesadas, com um forte em cada extremidade. Na rua andam mulheres de capote negro, apertado na cinta e formando concha sobre a cabeça, e raparigas do povo com o lenço atado só com um nó e deixando ver as madeixas: – são as solteiras; as casadas escondem todo o cabelo e atam duas vezes o lenço no pescoço. Foi aqui que vi as mais lindas figuras de mulheres dos Açores – tipos peninsulares, de cabelos negros e olhos negros retintos."
In As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Projecto nova Residência ACM Terceira | Açores | Arqt. Miguel Cunha


"O novo lar residencial/atelier de tempos livres (ATL) da Associação Cristã da Mocidade (ACM) da Terceira vai surgir literalmente das cinzas a que ficou reduzido o interior do imóvel da antiga sede da instituição, na Canada dos Folhadais, em São Carlos, Angra do Heroísmo, após um incêndio que deflagrou no passado mês de Junho.

O projecto de arquitectura, apresentado ontem à tarde, prevê a demolição total desse edifício e seus anexos, com excepção do pavilhão desportivo, e a construção de uma edificação de dois pisos, implantada em cerca de 1.100 metros quadrados, com capacidade para um máximo de treze utentes (doze, mais um, em casos pontuais).

Berta Silva, a presidente da direcção da ACM/Terceira refere que este é “um grande passo para a concretização dos nosso objectivos, preenchendo uma lacuna para os portadores de deficiência. Os nossos utentes e a nossa comunidade estão em primeiro lugar e não merecem menos que isso: uma habitação com condições adequadas para ser o seu lar”.

Porém, questionada pelos jornalistas, a responsável pela instituição, apesar de não quantificar, refere existir uma lista de espera superior à oferta que será em breve criada.

Obras até final do ano

“Este é um projecto de todos os sócios da ACM. É o início da concretização de um sonho”, assim definiu João Santos, presidente da assembleia-geral da ACM, na cerimónia de apresentação do projecto do novo lar residencial.

“O Governo Regional tem criado todas as condições, os órgãos sociais têm trabalhado e demonstrado merecer a confiança daqueles que põe à sua disposição dinheiros públicos para serem bem geridos e investidos, e a obra começa, de facto a nascer. Não vamos dizer se é tarde, se é cedo, é uma obra que nasce agora”.

O responsável explicou que o investimento, que resulta de verbas do executivo açoriano que oscilará entre os 850 mil e um milhão de euros, deverá arrancar até final deste ano, encontrando-se actualmente o projecto em apreciação na autarquia angrense, estimando-se a sua conclusão para daí a 8 a 12 meses.

A melhor residência a nível regional

A autarca angrense, Andreia Cardoso, referiu que a obra irá dar lugar a uma das melhores infra-estruturas do género: “a nível regional será das melhores residências que teremos de apoio a criança e jovens com deficiência”, reconhecendo tratar-se de um investimento que veio colmatar uma “carência” existente há já algum tempo na ilha Terceira.

“Este projecto é importante para as crianças do concelho de Angra do Heroísmo portadores de deficiência que, felizmente, em hoje, dia, têm uma esperança média de vida muito superior ao que acontecia há uns anos e que, por isso, causam preocupações as pais porque os cuidados têm de, numa determinada fase da vida, ser necessariamente remetidos a outras pessoas”.

A edil recordou também o papel da ACM ao nível da actividade desportiva, referindo que “a ACM é referência ao nível do desporto na região”, recordando que a mesma é co-organizadora de uma prova mundial para jovens portadores de Síndrome de Down.

Empreendedorismo associativo procura-se

“Cada vez mais, precisamos que as direcções das nossas instituições tenham este empreendedorismo, tenham esta pro-actividade de avançar com a coisas, muitas vezes puxando por nós, atiçando a necessidade de darmos resposta e, de facto, nesta matéria a direcção da ACM está de parabéns”, referiu a directora regional da Solidariedade e Segurança Social, Natércia Gaspar, que substituiu a secretária regional do Trabalho e Solidariedade Social, Ana Paula Marques, na cerimónia.

“Há três anos, nascia o Centro de Actividades Ocupacionais (COA) da ACM e, na altura, foi sem dúvida, o melhor da COA dos Açores e a nova residência será muito provavelmente o melhor lar residencial para pessoas com deficiência”.

Para a governante, a ACM presta uma “resposta integrada”: “A ACM tem, neste momento, um COA, tem em carteira um centro de inserção social porque sempre teve muita preocupação com a ocupação laboral das pessoas com a deficiência – sendo uma referência na região nesta matéria – e tem projectos na área do desporto e vários projectos abertos à comunidade que a autarquia tem apoiado”.

Imóvel com dois pisos

O projecto para a edificação da nova residência, de autoria do gabinete “MMC – Arquitectura e Design”, possui oito quartos para os utentes (cinco duplos e três single´s) preparados para pessoas com mobilidade reduzida, localizados no piso superior.

O novo imóvel tem, por isso, projectado uma rampa exterior que permitirá uma “eficaz evacuação de utentes do Piso 1 em caso de emergência”, referiu o arquitecto Miguel Cunha.

Além de zona de alpendre, serão criadas “zonas de estar exteriores confortáveis e que prolonguem os espaços de convívio interiores”.

Em termos de acessibilidades, o projecto prevê acessos a viaturas de emergência, palas de cobertura nos principais acessos ao prédio, zona de cargas e descargas com funcionamento independente, entre outros."

Humberta Augusta

In Jornal União